Memórias falsas: influenciando processos, destruindo vidas!

Em 2015 escrevi um artigo intitulado “Inflação da imaginação”: poderiam, as falsas memórias, influenciarem no processo penal e até na “justiça privada”?  Na época postei no blog do referido link (que é bem mais antigo que este aqui); hoje venho falar do mesmo assunto, só que desta feita com mais propriedade pois o tema já está, PRATICAMENTE, consolidado.

De fato, nos dias atuais já se pode perceber, com mais claridade, o estrago que a “implantação” de memórias falsas poderia fazer na vida de alguém. Desde a descoberta dessa possibilidade alguns filmes foram feitos – uns até baseados em fatos reais e chegam a ser perturbadores.

Existe um de nome POLISSIA, que é Francês. Ele está avaliado de forma positiva em sites e blogs especializados em filmes – dizem que vale muito a pena ver pois se trata de casos “reais” resolvidos e/ou não resolvidos pelo Batalhão de Proteção aos menores de Paris (envolve guarda, pedofilia, alienação parental, etc). Veja aqui o resumo – caso deseje vê-lo na tela procure pelo nome citado no youtube e certamente o encontrará.

Outro que merece audiência é o premiado filme A CAÇA.

RESUMO DE “A CAÇA” – (não sou spoillers – rsrsr)

Um Professor é acusado de pedofilia e, mesmo inocente (ops…falei…rsrsr), tem a vida toda mudada, para pior, claro!  Este é exatamente o mote do filme A caça, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e um dos candidatos a melhor filme estrangeiro no Oscar 2014 (perdeu para o A grande beleza).  Dirigido pelo dinamarquês Thomas Vinterberg (o mesmo do clássico Festa em família, que marcou o início do movimento Dogma 95), o filme conta a dramática história de Lucas.  Interpretado pelo ator Mads Mikkelsen, que, atualmente vive o protagonista da série Hannibal, Lucas tenta reconstruir sua vida após um complicado divórcio, no qual perdeu a guarda de seu único filho. Para se sustentar, trabalha em uma creche, na qual é adorado pelas crianças e respeitado pelos colegas. Nas horas de folga e em determinados momentos do ano se reúne com os amigos para caçar cervos, beber e se divertir. Tudo isto começa a mudar quando a angelical Klara, de 5 anos – e filha do melhor amigo diz para a diretora da escola que Lucas lhe mostrou seu pênis ereto….

Quer saber mais sobre o filme? ( baixe no torrente ou assista diretamente no youtube ).
REVISÃO ARTIGO ANTERIOR

Na época em que escrevemos o artigo (2015), referente as memórias falsas, procuramos dar enfoque a uma Doutora em Psicologia que é a norte-americana Elizabeth Loftus (autora de um estudo certificado sobre o assunto em questão). Segundo ela depois de se fazer a mente imaginar os detalhes de um“evento” vem a “certeza” de que ele de fato ocorreu. Segue dizendo que é possível, de modo relativamente fácil, fazer alguém se lembrar de algo que não aconteceu – essa seria uma nova e preocupante descoberta da psicologia.

Esses fenômenos seriam uma mera curiosidade científica se não estivesse disseminados no dia a dia das pessoas. Estudos têm mostrado que a sugestão – por um policial em interrogatório, por um psicanalista ou pelos meios de comunicação – tem o poder de alterar a memória de fatos vividos.

Pior ainda: criou-se nos EUA uma “indústria”, diz Loftus, da “memória reprimida” de eventos traumatizantes, que fez muitas mulheres imaginarem que foram repetidamente abusadas sexualmente quando crianças.

Em pelo menos um caso, um sujeito inocente foi para a cadeia baseado apenas nessa “prova” testemunhal, arrancada pelo terapeuta da memória de sua filha. Ele foi solto após a filha ter inventado crimes que ele não poderia ter de modo algum cometido, por estar viajando, e quando se notou a semelhança de uma descrição com um caso real, bem divulgado pelos meios de comunicação na época do suposto “crime”, em 1969.

Quem é Elizabeth Loftus?

Elizabeth Loftus é uma psicóloga norte-americana, especialista em memória humana que desenvolveu uma extensa pesquisa acerca da natureza das memórias falsas.

Nas décadas de 80 e 90, os Estados Unidos viveram uma epidemia de “recuperação de memória” de abusos sofridos na infância, com pacientes de psicólogos e de psicoterapeutas que recordavam subitamente terem sido vítimas de violência – geralmente, sexual – por parte de pais, professores ou outros adultos.

Vários processos judiciais foram abertos pelas “lembranças” ressurgidas. O que Elizabeth Loftus tentou demonstrar foi que era possível que as memórias fossem falsas e tivessem sido criadas e implantadas na mente dos pacientes pelos próprios terapeutas – antes de fazer essa constatação a estudiosa fez vários experimentos, com centenas de voluntários.

Poderiam essas falsas memórias poderiam influenciarem no Processo Penal e pior, na “justiça privada” (por meio linchamentos reais e morais)?

Com certeza!

Quem não se lembra da Escola Base em 1994 (no Brasil) quando uma equipe inteira de Professores, Proprietários e Motorista foram acusados, INJUSTAMENTE, pelas crianças – a imprensa os destruíram; imagine hoje com as redes sociais a todo vapor com gente disposta a COMPARTILHAR tudo, e com TODOS!? Esses coitados estariam pior do que estiveram naquele ano e em anos posteriores (ENSINE O SEU FILHO A SER GENTE – “mentir não é de Deus”).

escola base

Apesar disso, disseram, alguns anos depois, que foram os pais que incentivaram os filhos a mentir sobre A PEDOFILIA, antes dita como abuso infantil, para não ter que pagar a escola (mas, quanto a isso não podemos afirmar).

OPINIÃO E NOTÍCIA, JUNTAS!

Como não sou especialista no assunto (psicologia – mentes humanas) vou ater-me a uma lógica pessoal.

Crível ou não, um desconhecido só se torna um “ilustre conhecido” demonstrando, fazendo e/ou falando. É o que tentarei fazer aqui.

Em 2015 alguns linchamentos aconteceram no Brasil – um deles se passou em São Paulo – Itanhaém. Um rapaz, que segundo amigos, sofria de depressão severa, raramente saía de casa, quando o fazia era sempre acompanhado de amigos foi confundido com um estuprador e linchado por populares. Saiba mais lendo a notícia abaixo.

Veja a reportagem do G1 da época:

A amiga afirmou que Junio Flávio Alves de Alcântara, de 28 anos, sempre foi uma pessoa calma e nunca arranjou confusão. No entanto, ele estaria sofrendo de depressão e vinha “ouvindo vozes” nos últimos dias.

O crime aconteceu no dia 30 de julho. Junio saiu de casa com a amiga para conversar em um bar e, após sofrer um surto, foi embora do local sozinho. A mulher, que prefere não se identificar, conta que começou a procurar pelo rapaz no dia 31. Depois de percorrer diversos lugares, encontrou o amigo em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Ele apresentava diversos ferimentos e os médicos constataram sua morte cerebral no mesmo dia.

“Antes do crime, ele já estava há uns três dias trancado no quarto, se alimentando muito mal. O Junio tinha depressão e estávamos indo em alguns hospitais para ele fazer exames e ser medicado”, relata.

No dia do desaparecimento, ele pediu para conversar com a amiga em um bar.  “Quando chegamos, ele comentou que estava ouvindo vozes. Nesse dia, ele chorou muito, disse que tinha uma dor interna muito grande”, conta.

Após um surto, Junio Flavio fugiu do local e a agressão aconteceu horas depois.

De acordo com informações da Polícia Civil, ele teria sido confundido com um suposto estuprador que estaria cometendo crimes na cidade. Várias pessoas podem ter participado do ataque e algumas já foram ouvidas.

A amiga conta que Junio nunca apresentou nenhum comportamento agressivo contra ela e sempre se mostrou carinhoso. “Meus filhos gostavam dele, minha família. Ele era uma excelente pessoa, muito caseiro, não era de baladas, sempre foi tranquilo. Mesmo na cidade, quando saía, nunca era sozinho, eu sempre estava com ele”, finaliza.

Em um vídeo postado na internet, a mãe da vítima afirma que seu filho nunca se meteu em brigas e que ele era uma pessoa de boa índole. Ela ainda faz um pedido para que todos os envolvidos na agressão se entreguem para a polícia e que seja feita justiça.

POIS É, Veja só o que uma “confusão mental” pode fazer a um inocente; ainda mais quando ela é compartilhada com outros. Em um linchamento é isso que se passa. Um diz que fulano praticou um crime porque acha ele parecido ou o imagina ter visto fazendo e logo “arrebata” uma multidão, favoráveis a essa sua “imaginação inflacionada” (o que para mim não passa de uma loucura coletiva) e como bichos ou bárbaros atacam sem piedade a vítima.

Aqui no Brasil, esse não é o primeiro caso de gente inocente que foi confundida com criminoso. Depois do crime cometido todos são igualmente criminosos. Quem achava que estaria fazendo “justiça privada” (linchando), e quem ainda está vivo pois, o morto, nada tinha a ver com o crime.

Com isso, podemos concluir que REALMENTE  a “vingança é um prato que se come frio” – (frase feita só para refletir).

E no Processo Penal, ainda durante o Inquérito Policial os agentes ou Autoridade Policial, por meio de um reconhecimento induz a vítima a acreditar que foi o fulano A, B ou C o autor do crime e essa pessoa, fragilizada tem o “dito cujo”, apontado como sendo ele o criminoso que lhe atacou.

A Psicóloga citada no texto explica em sua obra como isso se dá – feito por um especialista no assunto é ainda mais fácil fazer com que alguém reconheça outrem como sendo alguém que não é.
Um perigo para a sociedade a que ninguém gostaria de estar exposto. Ou, acaso você, que é favorável a “justiça privada” gostaria de ser confundido com um criminoso, um estuprador por exemplo?  Se alguns “ladrões de galinha” estão sendo linchados sem piedade, imagine o que fariam se encontrassem alguém que creem ter estuprado criancinhas…, certeza que os favoráveis ao linchamento não gostariam de estar na pele dessa pessoa (a inocente/confundida).  Veja aqui a notícia de uma mulher que foi linchada por ter sido confundida e por boatos – no Guarujá em 2014.

Portanto, devemos repensar essa prática criminosa da justiça privada.

Depois do crime cometido a pessoa se tornará tão criminosa quanto o criminoso que matou – e se houver equivocado pior será a vida pois, de que forma poderá explicar aos que ama que ajudou a matar um inocente?

BOATOS
Creio que vale a pena ressaltar: “deixe a justiça fazer justiça”“Direitos humanos são para humanos e desumanos”! (POR ELANE SOUZA).

Autoria: Elane F. De Souza OAB-CE 27.340-B (ao reproduzir cite as fontes e autoria)
Fotos/Créditos: G1 Santos; R7 notícias

Fontes: psicologia experimental; G1 Santos SP; COTIDIANO E O DIREITO

Por Elane Souza Advogada, Autora e Adm. de Divulgando Direitos outros Blogs com assuntos similares

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